Entre o brega e o dançante, Bruno Mars flerta com onda latina em The Romantic
Dez anos depois de 24K Magic, o cantor volta reforçando a influência dos anos 1970 em seu trabalho.
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Os primeiros segundos de The Romantic, novo álbum de Bruno Mars, podem nos pregar uma peça. Por alguns instantes, achamos que estamos ouvindo uma faixa do badalado Debí Tirar Más Fotos, de Bad Bunny, mas não — essa é apenas uma amostra do grande flerte que o cantor faz com a música latina no disco. Mars, que não é bobo, vem “brincando” com os sentimentos dos latinos desde sua última passagem pelo Brasil, onde ficou um mês fazendo shows, e pelo México. Bruninho sabe o engajamento que isso pode garantir e entrega algumas peças pensadas especialmente para esse público.
Mas nem só de latinidade vive The Romantic, quarto álbum solo do cantor, lançado dez anos depois de 24K Magic e mais de quatro anos após An Evening with Silk Sonic, projeto em parceria com Anderson .Paak. Bruno Mars segue dançando juntinho com o soul dos anos 1970, misturando Motown com a sonoridade da Filadélfia, e consegue um resultado melhor do que no trabalho com .Paak. As baladas “God Was Showing Off” e “Why You Wanna Fight”, com letras carregadas na breguice (“você me quer batendo à porta, chorando na chuva”), são provas do caminho que o cantor passa com tranquilidade, mas que carrega algo que alguns fãs sempre apontam: sonoridades parecidas demais. É improvável ouvir as duas faixas sem pensar em trabalhos anteriores de Mars em 24K Magic e Unorthodox Jukebox.
O single “I Just Might” e a ótima “On My Soul” colocam o cantor em outro espectro de seus shows, misturando o pop com elementos que influenciaram sua carreira. O baixo marcante e a harmonia vocal da primeira trazem uma lembrança clara do porquê Bruno Mars se tornou um fenômeno. Carismática, dançante e um tanto quanto inadequada em algumas estrofes, “I Just Might” colabora para a criação dessa persona cafajeste, do “Bruninho vintage”. Já “On My Soul” é o Bruno cantor de festa, abrindo a pista de dança com metais e guitarras swingadas. É impossível não pensar em “You're The First, The Last, My Everything”, de Barry White, na entrada do refrão.
Mas o grande barato de The Romantic está no já citado flerte de Bruno Mars com a música latina, algo que traz ao disco um frescor inesperado, ainda que a capa do álbum já deixe claro esse ar de “amante latino” que o cantor quer transmitir. A coincidência (será?) da presença de Lady Gaga no show do Super Bowl, cantando “Die With a Smile”, sua parceria com Mars, em ritmo latino, torna tudo ainda mais interessante. Inclusive, “Nothing Left” soa como uma balada quase sequência do sucesso da dupla.
Essa proximidade com a música latina vira praticamente uma homenagem em “Something Serious”, com semelhanças evidentes a “Oye Cómo Va”, de Tito Puente, eternizada por Santana. Já “Risk It All”, faixa que abre o disco em ritmo mais lento e deixando clara a temática que vai guiar essa persona de Mars, surpreende com a percussão e as cordas, misturando as baladas do cantor com referências a Luis Miguel e outros românticos latinos. A sequência com “Cha Cha Cha” eleva ainda mais essa viagem de Bruno por ritmos diferentes, mesmo que que não passe de um flerte rápido, já que ele a encerra puxando para um arranjo mais disco, no melhor estilo Gloria Gaynor.
Dançante, seja para sacudir o corpo ou para se aproximar do companheiro, The Romantic é mais uma prova de que Bruno Mars é figura essencial no pop atual — tal qual Harry Styles, que lança seu novo disco na semana seguinte. Fica a expectativa se veremos o cantor se arriscar mais no próximo trabalho e acertando como aqui, ou se ele vai se manter seguro na vibe Silk Sonic que abraçou e repetiu na outra metade. Independente da escolha, esperamos que não demore outros dez anos.