Série expõe caos e abusos nos bastidores de America's Next Top Model; entenda
Produção escancara o legado problemático por trás de um dos maiores reality shows da história
Créditos da imagem: Arte de Reality Check: Inside America's Next Top Model (Reprodução)
Não é exagero afirmar que, entre os inúmeros reality shows que marcaram a cultura pop ao longo das últimas décadas, America’s Next Top Model ocupa um lugar de destaque.
Mesmo quem nunca acompanhou o programa de perto certamente esbarrou em algum de seus momentos icônicos: a competição comandada pela supermodel Tyra Banks foi um fenômeno dos anos 2000, colocando aspirantes à modelo para — quase literalmente — lutarem por um espaço nas passarelas e capas das maiores revistas de moda. Anos após sua última temporada, a nova série documental da Netflix, Reality Check: Inside America’s Next Top Model, reabre as portas do reality para lançar luz sobre bastidores chocantes.
Parte do impacto de Reality Check vem do fato de Tyra Banks aceitar participar do documentário sem qualquer controle criativo — um movimento que transforma a série em uma espécie de tribunal público. O resultado é um mergulho nada confortável nas acusações de racismo, body shaming e abusos que, por anos, foram varridas para debaixo do tapete da produção da UPN nos anos 2000.
Como tudo começou?
Reality Check volta a 2003, quando America’s Next Top Model estreou sua primeira temporada – ou primeiro ciclo, na linguagem do programa. Com orçamento limitado, a competição idealizada por Tyra Banks, ao lado de J. "Miss J" Alexander e Jay Manuel, reuniu dez aspirantes a modelo em um formato ainda cru, que prometia mostrar os bastidores reais da profissão.
Em retrospecto, esse começo simples se mostrou decisivo para o sucesso do programa. Críticos apontam que o baixo valor de produção conferiu na época uma certa autenticidade ao reality, criando um raro vislumbre da indústria da moda. O impacto do primeiro ciclo foi suficiente para alavancar a série e abrir caminho para a franquia se tornar um fenômeno cultural – e por consequência escancarar ainda mais para o mundo da moda e suas problemáticas. E é aqui que a série documental da Netflix se torna espinhosa.
Racismo | Ebony Haith
Participante do primeiro ciclo de America’s Next Top Model, Ebony Haith se destacava imediatamente: pele escura, olhar marcante e uma presença que dialogava diretamente com a proposta inicial do programa de ampliar os padrões de beleza da moda – uma bandeira erguida fortemente por Tyra Banks.
Em Reality Check: Inside America’s Next Top Model, ela revisita como essa promessa rapidamente se perdeu. No documentário, Ebony relata micro-agressões constantes nos bastidores, incluindo um corte de cabelo mal executado por profissionais que não sabiam lidar com cabelo crespo — acompanhado de comentários cruéis que ficaram fora de controle.
Em outro momento, ela relembra uma ligação que acreditava ser de acolhimento, mas que acabou reforçando estereótipos: segundo Ebony, Tyra Banks repassou a ela a avaliação de que sua pele parecia “ashy”, termo historicamente usado para diminuir pessoas pretas em relação a sua pele. O relato escancara como, em nome do drama televisivo, o reality (e Tyra) não apenas falhou em protegê-la, como se apoiou em estigmas para construir sua narrativa.
Abuso Sexual | Shandi Sullivan
Talvez uma das participantes mais emblemáticas da franquia – e não necessariamente pelos melhores e mais corretos motivos – Shandi Sullivan integrou o segundo ciclo de America’s Next Top Model. Hoje com 43 anos, ela afirma no documentário que o reality, que prometia abrir portas, acabou marcando sua vida de forma irreversível.
Durante as gravações em Milão, Shandi se envolveu com um modelo italiano durante uma festinha no apartamento das modelos — momento que foi exibido pelo programa como uma “traição” e transformado em espetáculo. Em Reality Check, porém, a ex-participante revisita o ocorrido sob outra perspectiva: alcoolizada, ela diz ter apagado durante boa parte da noite enquanto as câmeras continuavam ligadas.
“Eu fiquei apagada a maior parte do tempo. Nem senti o sexo acontecer, só sabia que estava acontecendo. E então eu desmaiei”, afirmou Shandi. “Ninguém fez nada para impedir, e tudo foi filmado. Cada momento. Eu lembro de entrar no chuveiro, sentar no chão, e depois estávamos na cama".
Segundo Shandi, a produção não apenas falhou em intervir como explorou o episódio narrativamente. Após o ocorrido, ela relata ter pedido para ir embora e exigido um telefone para falar com o namorado, Eric Nicholson, mas encontrou resistência da equipe. Ainda assim, a ligação — em que ele a confronta chorando — foi gravada e exibida no programa.
De volta ao documentário da Netflix, Tyra Banks evita assumir responsabilidade direta pelo caso, enquanto o produtor Ken Mok defende que as imagens foram “suavizadas” na edição. A justificativa, no entanto, apenas reforça o que Reality Check escancara: um momento de vulnerabilidade extrema tratado como conteúdo sensacionalista para um programa que explorava muitos dos chavões da TV do anos 2000. Tanto que Banks repete várias vezes, durante suas entrevistas, o quão comum tudo aquilo era para a época.
"We Were All Rooting For You! How Dare You!?" | Tiffany Richardson
O momento mais conhecido do reality show hoje em dia, devido à sua eternização como meme na internet, foi justamente um dos episódios de maior descontrole de Tyra Banks no comando do programa. Apesar de não retornar para o documentário, o nome de Tiffany Richardson é relembrado com força no terceiro episódio da série da Netflix.
Trata-se do momento em que, diante das outras participantes, Banks acusa a jovem Richardson de ter uma postura derrotista após se recusar a ler um teleprompter — discurso que, embora travestido de “lição” sobre a dureza imposta a mulheres negras, acabou reforçando exatamente o estereótipo que Tiffany tentava evitar. O episódio, revisto à luz do documentário, expõe como a retórica do “trabalhar duas vezes mais” rapidamente se transforma em punição pública, novamente enquadrando uma mulher negra como problemática, difícil ou incapaz de lidar com a pressão – e indo contra, novamente, à suposta bandeira diversificada que Tyra dizia levantar no mundo da moda.
Além disso, os próprios colegas da bancada de jurados afirmam que Banks passou do ponto com Tiffany – mas também enxergam o episódio como um momento de autorreflexão da supermodelo, que possivelmente se via em Richardson o suficiente para reagir daquela maneira explosiva.
Cirurgia Odontológica à Força | Danielle Evans
No sexto ciclo, quem ganhou a temporada acabou se tornando parte de outro terrível momento que Reality Check revisita foi Danielle “Dani” Evans. Ela revelou no documentário que foi pressionada a fechar o espaço entre os dentes — sua marca registrada — para não ser eliminada da competição.
Embora inicialmente tenha recusado, ela conta que a produção deixou claro que sua permanência dependia da mudança, um tipo de “melhoria” que remete a um tempo em que mulheres negras não tinham controle sobre seus próprios corpos.
Danielle, inclusive, se mostra ainda mais indignada ao relembrar que, alguns ciclos depois, uma participante branca recém-chegada à competição apresentava o mesmo tipo de espaço entre os dentes e, para sua surpresa, foi recebida com nada além de elogios por Tyra Banks, além da promessa de que o diastema (o espaço entre os dentes) era algo bonito — e que deveria ser valorizado, não corrigido.
Evans acusa o programa de transformar seu sorriso em espetáculo: “É a minha vida, e foi manipulada de forma consciente. E eu dizendo não, e eles indo contra isso — isso é invasivo”.
Mudança de Etnia e Brigas no Júri
Outro ponto que Reality Check: Inside America’s Next Top Model coloca sob o holofote são os infames desafios de “mudança de etnia” promovidos por America’s Next Top Model. Vendidas à época como exercícios de versatilidade estética, as provas envolviam maquiagem pesada, próteses e alterações físicas que simulavam traços raciais — práticas que, revisitadas hoje, escancaram um flerte perigoso com blackface, yellowface e outros estereótipos raciais.
No documentário, as ex-participantes relatam desconforto imediato e a sensação de que seus corpos estavam sendo usados como ferramentas de choque visual, em nome do “inesperado” televisivo. A proposta de celebrar diversidade acabava dando lugar a caricaturas, reforçando clichês raciais e ignorando completamente o contexto histórico e social dessas representações.
O documentário ainda explora a conturbada relação entre Tyra e seus colegas da bancada de júri que, em dado momento – mais próximo das últimas temporadas do reality – foram descartados pela produção. Miss “J” Alexander, Jay Manuel e Nigel Barker foram demitidos pela própria Tyra, segundo eles, de maneira pouco amigável e carecida da proximidade que os três acreditavam ter com a apresentadora e modelo.
Por que revisitar ANTM?
Ao final do terceiro e último episódio de Reality Check, fica evidente que a série documental da Netflix busca revisitar os inúmeros problemas que marcaram os ciclos de America’s Next Top Model, convidando o público — enquanto sociedade contemporânea, supostamente mais consciente — a analisá-los sob um novo olhar e, sobretudo, a ouvir as vozes das muitas mulheres que, em nome do entretenimento dos anos 2000 e de regras arbitrárias, foram expostas e humilhadas em rede global.
No entanto, o grande trunfo da produção é mesmo Tyra Banks — e não da forma que ela talvez esperasse. Se a intenção era usar o documentário como um gesto de reabilitação de imagem, o efeito é justamente o oposto. Em vez de uma figura disposta a assumir responsabilidades, o que se vê é uma defesa diluída em justificativas tímidas, ancoradas em frases como “naquela época era assim” ou “eu era apenas a apresentadora”.
O resultado é um documentário potente, que coloca Banks em uma saia justa difícil de sustentar — até mesmo para alguém acostumada a desfilar sob pressão.